Escolha ser mãe ou não. Vão te julgar do mesmo jeito

Na semana que precede o Dia das Mães, o assunto não poderia ser outro: a maternidade.

Ser mãe, que além de ser uma função de tempo integral, é uma escolha que deve caber à mulher. Por mais que seja lindo ter um filho, uma forma totalmente diferente de vivenciar o amor e um papel social ao perpetuar a humanidade, não é e jamais deverá ser uma obrigação.

É crescente a quantidade de mulheres que começam a se questionar se têm de fato a vontade de serem mães ou se esse é um valor culturalmente induzido durante toda a nossa vida. Existe até um termo para isso: NoMo, uma abreviação de “No Mothers”. No Brasil, elas representam 37% das mulheres, o que é bastante expressivo.



A sociedade ainda julga quem opta por esse caminho. Como se fosse um desperdício não usarmos o útero. Frases como “ah, você diz isso agora, mas uma hora o relógio biológico vai chamar” não são incomuns.

Tratam a mulher que diz abertamente não ter o desejo de ser mãe como egoísta.

 

Foi só em março, dois meses atrás, que a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que retira da legislação a exigência do consentimento do cônjuge para a realização de laqueadura ou vasectomia. E ainda aguardamos o parecer do Senado sobre o tema.

Mas se a lei diz que pode fazer a esterilização voluntária qualquer mulher com 25 anos ou ao menos dois filhos, sabemos que esse “ou” não é interpretado como deveria. Muitos médicos tentam desestimular o que deveria ser uma decisão da mulher, dona de seu corpo. Falam “você é muito nova, vai se arrepender”. E mesmo nos casos em que a mulher já tem a quantidade de filhos, mas não a idade, as dificuldades continuam.

E agora falando das mulheres que escolhem ser mães é aí que os julgamentos vem de todos os lados!

Vão falar que você é muito nova, que devia ter se planejado melhor, ou então que você é muito velha, que é arriscado. Vão dar 1001 dicas não solicitadas do que acham que você deveria fazer para cuidar do SEU filho.

Se você optar por não trabalhar, vão falar que você abriu mão da carreira. Se continuar trabalhando vão falar que você não é uma mãe dedicada.

 

Vão te olhar feio se seu filho estiver chorando na rua. Vão te criticar por ter dado a chupeta, o celular ou qualquer outra coisa quando você só precisava de alguns minutos de paz.

 

 

E tem dias que a sensação de arrependimento vai passar por você. E o pior é que você vai se sentir culpada.

A frase “quando nasce uma mãe, nasce uma culpa” é real e falamos sobre isso com a chef Renata Vanzetto no nosso podcast. Se não ouviu pega esse #TBT fora de dia porque foi um papo muito legal.

Indicado ao Oscar desse ano, o filme “A Filha Perdida” aborda também de uma forma muito humana o debate sobre o que se espera das mães. E quão libertador é saber que não existe fórmula da maternidade perfeita.

 

A Filha Perdida (2021)

A mensagem que queríamos deixar para você refletir nessa semana é que não existe certo ou errado. Só você pode saber qual caminho deseja seguir.

E mesmo tendo clareza na hora de fazer essa escolha, tem dias que a outra opção vai ter um apelo maior.

Mas a boa notícia é que está permitido sentir. Sentir tudo. Não se cobre ou se culpe quando você errar. E você vai errar, todas erramos.

Você não é uma mulher incompleta se decidir que não quer ser mãe. Você não é uma mãe ruim ao conciliar a maternidade com suas outras aspirações pessoais.

Talvez a maior beleza da maternidade é poder aprender algo novo sobre nós mesmas, todos os dias. Descobrimos uma força incrível que sempre existiu em nós.

E nós mulheres somos uma força da natureza. Sempre fomos. Devemos utilizar esse nosso potencial para construir a realidade que queremos. De forma livre e consciente.

Um beijo e boa semana!


Mulheres podem ter tudo?

Sobre a pergunta que aparece no título, “as mulheres podem ter tudo?”, seria ótimo se a resposta fosse simplesmente “sim”.

É isso.

Fim da newsletter.

Mas não é verdade falar que todas as mulheres vivem realidades que permitem, plenamente, que elas façam escolhas de vida apenas porque querem fazê-las.

E afinal, o que é ter tudo?

Ter tudo é a realização em todos os aspectos: uma carreira satisfatória, uma vida familiar feliz, com ou sem filhos, bons relacionamentos afetivos, saúde física e emocional.

Legal, queremos tudo isso. Mas será possível ter tudo ao mesmo tempo? Ou quando um desses aspectos não está 100% adequado isso se torna mais uma cobrança e motivo de insatisfação?

 

Que temos o direito de escolher nossa carreira isso não está nem em debate. É óbvio que devemos ter liberdade para decidir o que vamos fazer todos os dias por boa parte da nossa vida. A discussão agora gira em mudar um mercado de trabalho ainda resistente, que mantém uma estrutura patriarcal. Igualdade salarial, inclusão e consideração com as necessidades das mães são as bandeiras que precisamos falar.

Além de alcançar a igualdade na remuneração e acesso a oportunidades, queremos sentir que nosso trabalho serve a um propósito. Não queremos apenas gerar riquezas, que muitas vezes só vão enriquecer os outros. Desejamos que aquilo em que dedicamos nosso tempo, energia e criatividade tenha valor.

E se encontramos um trabalho onde nos sentimos bem e temos vontade de nos dedicar, também deveríamos poder ter um tempo adequado para estar com as pessoas que amamos. Formar uma família e ter filhos, quando essa é a nossa vontade, não deveria ser excludente a ter uma carreira de sucesso.

Por isso é tão importante ter mais mulheres em cargos de liderança, abrindo o caminho para quem começa a trilhar sua vida profissional agora.

Essas mulheres vão tornar o mercado mais alinhado às necessidades de todos os trabalhadores, homens e mulheres, porque o cuidado familiar não pode recair somente sobre as mães.

Para a geração X, feminismo era exatamente isso - ter tudo: acesso à educação, liberdade sexual, independência na hora de seguir uma carreira, pagamento igual e não ser considerada uma propriedade dos homens ou ficar limitada ao ambiente doméstico.

Provavelmente eu e você tivemos muito mais abertura para escolher o que queríamos fazer do que nossas mães e avós.

Já a geração Z tem um entendimento diferenciado sobre o que é “ter tudo”, já que é composta por meninos e meninas que sempre tiveram pais e mães com trabalhos integrais. Esses jovens entendem que quando o feminismo fala sobre “ter tudo”, isso não pode ser entendido como “fazer tudo”. É sobre-humano tentar dar conta de tudo, o tempo todo.

Ter tudo deve implicar em dividir mais e não chamar para si todas as responsabilidades.

Precisamos de uma mudança no mercado, com um formato mais flexível, onde todos tenham a possibilidade de desempenhar os diversos papéis que querem em sua vida.

Mas nesse sentido, os números ainda não estão a nosso favor. Nos EUA, 1/3 das mulheres que possuem cargos altos optaram por não ter filhos.

No Reino Unido, todos os anos 54.000 mulheres perdem seu emprego por causa da gravidez ou licença-maternidade. E ainda, 96% das mulheres que são mães afirmam que a maternidade afetou sua carreira de forma negativa.

No Brasil, metade das mulheres fica fora do mercado de trabalho em até dois anos após tirar a licença-maternidade.

Infelizmente persiste o cenário onde quem coloca sua carreira em primeiro plano é recompensado, enquanto quem opta por passar mais tempo com a família é visto como menos profissional.

Ao falar em filhos, devíamos parar de pensar nisso apenas como uma questão da mulher. Uma “escolha” ou “renúncia” dela. Claro que cada uma de nós pode decidir o que quer para a sua vida, mas quando falamos sobre ter filhos de forma geral estamos falando sobre viabilizar um futuro para a humanidade.

Mulheres sentem que devem postergar a gravidez ou não ter filhos se quiserem ter uma carreira de sucesso, ou em alguns casos, até mesmo um simples trabalho. Mas e se de repente todas as mulheres decidissem não ter mais filhos para apenas trabalhar? Seria o fim da humanidade, das empresas, de tudo. Por isso que garantir que todas as pessoas que desejam ser responsáveis por novas vidas tenham a estrutura para isso é sim algo com que o mercado deveria se preocupar.

Outro ponto dessa vida na pós-modernidade é o que diz respeito a nossa saúde emocional. Porque mesmo quando conquistamos postos altos, com salários adequados, muitas vezes não estamos felizes ao chegar lá. De que adianta uma conquista que não nos traz felicidade?

Por isso que nós, mulheres, ao falar que queremos tudo, não devemos nos desdobrar para tentar nos encaixar em um formato de mundo, que já foi chamado de masculino, que não faz mais sentido hoje. Está na hora do mundo se adaptar e ser melhor para todas e todos.

Indo um pouco mais além na reflexão, há ainda o peso invisível do que se entende por carreira de sucesso.

É necessário desconstruir a ideia de que o sucesso só pode ser medido na esfera profissional. Nem todas nós vamos ser chefes. Ou influencers com 1 milhão de seguidores. E não somos obrigadas a querer isso.

Podemos ter um trabalho que consideramos adequado às nossas necessidades e buscar nossa felicidade em hobbies, na convivência com amigos, em uma atividade voluntária.

Sua realização pode estar em outros campos, que não é o da carreira. E tudo bem ser assim.

Precisamos sentir que somos completas, que não precisamos provar nada a ninguém, nem atender expectativas que não são as nossas. Se dedique ao que te faz bem.

 

Você não precisa ter tudo, mas pode ir atrás de tudo o que desejar.

Um beijo e boa semana!


Como lidar com fantasmas 👻

Não sei se você é fã de filmes de terror, mas hoje vamos falar sobre algo nessa temática: fantasmas e assombrações. Boooo

 

Na verdade só falei dos filmes porque na maioria deles, quando algo aparece para assombrar os protagonistas geralmente tem um motivo. Pode ser um assassinato não resolvido, a vingança por um trauma sofrido ou a necessidade de entrar em contato com alguém do passado.

Ghost - Do outro lado da vida (1990)

O que vamos falar não tem nada de sobrenatural e é bastante comum. Os fantasmas de situações que vivemos e que insistem em se fixar na nossa mente.

Tem até uma música da banda australiana Men at Work que traduz bem essa situação, chamada Overkill (Exagero).

“I can't get to sleep / Eu não consigo dormir
I think about the implications / Eu fico pensando nas implicações
Of diving in too deep / De me jogar de cabeça
And possibly the complications / E as possíveis complicações

Especially at night / Especialmente à noite
I worry over situations / Eu me preocupo muito com as situações
I know I'll be alright / Eu sei que tudo vai ficar bem
Perhaps it's just imagination / Talvez seja só minha imaginação

Day after day it reappears / Dia após dia isso reaparece
Night after night my heartbeat shows the fear / Noite após noite, as batidas do meu coração demonstram medo
Ghosts appear and fade away / Fantasmas aparecem e somem"

Tem ainda a expressão em inglês skeleton in the closet ou "esqueleto no armário" que significa algo que temos vergonha e queremos esconder.

Então seja o esqueleto no armário ou os fantasmas que aparecem, fato é que tem cenas, momentos ou situações que vivemos que voltam para nos assombrar e tirar a nossa paz.

Bom seria ter a memória de um peixinho dourado. Aquele “se eu não lembro eu não fiz”. Ou ainda se tivéssemos como simplesmente deletar as coisas que não queremos recordar. Achou uma foto no celular que não gostou? Só mandar para a lixeira.

 

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004)

Mas a nossa mente não funciona assim. Às vezes nos deitamos na cama para relaxar e dormirm mas aparece aquela lembrança de algo que não gostamos ou uma saudade que conscientemente sabemos que já devíamos ter nos desapegado. Isso quando não revivemos uma cena desagradável em Full HD 4k nos nossos sonhos...

Freud disse que “o sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente” e pela psicanálise entende-se que os sonhos são muito mais uma manifestação das nossas vontades ou medos do que uma relação com a realidade.

Então aquela situação, seja uma vergonha que você passou na 5ª série do ensino fundamental, algo que você se arrependeu de falar em uma discussão ou até aquilo que você gostaria de ter falado e no calor do momento não conseguiu, esses momentos passados que ainda te incomodam são algo que você precisa lidar se quiser se libertar.

Aprender a se perdoar, passar um verdadeiro pano para você mesma e saber que tudo bem errar, afinal quem nunca né?

Tudo isso é parte de um processo de cura.

É bom contar com a ajuda de um profissional para identificar os gatilhos e o porquê estamos obcecadas com um determinado pensamento. Mas podemos fazer o exercício de confrontá-los no nosso dia a dia.

Pensar demais em algo, ficar projetando conjecturas e fantasiando desfechos diferentes do passado não é algo que vai ser útil no presente e futuro. O ideal é aprender com os erros, desapegar da vergonha e seguir em frente.

 

E para isso, melhor do que fugir dos fantasmas é encará-los. Por que continuo pensando nisso? Por que tal dia ainda me incomoda? O que posso fazer diferente em uma situação semelhante que venha a acontecer?

Liberte-se dos seus fantasmas e seja mais livre também!

Um beijo e boa semana!

 

A Noiva Cadáver (2005)

A gente transbordou

Transbordar é não caber em si mesmo. É ser piscina em dia de chuva, quando o corpo é pequeno demais pra própria alma. É o que acontece quando a gente mergulha - de verdade - na gente”- João Doederlein/@akapoeta

É Freefree, temos uma notícia muito boa para compartilhar com você!

Nosso trabalho por aqui sempre foi um verdadeiro mergulho na alma. Acompanhamos mulheres tão diferentes, mas que em comum têm sua força interior e a vontade de viver sua vida plenamente. Com muito orgulho fizemos parte de um capítulo de suas histórias e vimos tantos outros sendo escritos.

Nós acreditamos que as mulheres só podem se dizer livres quando T-O-D-A-S forem livres, sem exceção. Enquanto uma de nós ainda viver com medo, culpa, oprimida em qualquer aspecto da sua vida, é sinal de que ainda temos trabalho a fazer.

 

E por mais que o nosso país de origem, o Brasil, onde tudo começou, tenha ainda índices muito difíceis de encarar no que diz respeito à violência contra a mulher, assédio, machismo, discriminação e desigualdade, vamos dar um passo além na nossa missão.

Nosso trabalho por aqui não vai parar, muito pelo contrário!

Estamos expandido, crescendo, ampliando a quantidade de multiplicadores da nossa mensagem.

Mas agora o Free Free vai para o mundo com o nascimento do Free Free World. Vamos ampliar o alcance das nossas campanhas e levar mais cor e acolhimento para mulheres em outros locais do globo.

 

Por mais que a gente tenha origens diversas, culturas e valores particulares na nossa formação, o entendimento de que a liberdade das mulheres é essencial é universal.

Não apenas como um conceito abstrato, mas embasado por diversos estudos que apontam que países com mais equidade de gênero são mais seguros, mais desenvolvidos e mais prósperos.

Abrimos nossas asas e agora já estamos com projetos em andamento em cinco países!

Fizemos um grande planejamento para lançar o Free Free World, nos empenhamos no inglês para falar com o maior número de pessoas possível, mas, quando a realidade bate na nossa porta, não podemos ignorá-la.

Precisamos agir.

E o que aconteceu foi essa surreal guerra, com uma pandemia ainda existente, que obrigou milhões de pessoas a abandonarem seus lares, seu porto-seguro, e fugir para salvar suas vidas.

Então postergamos um pouquinho a comemoração do nosso projeto mundial para já lançar o programa “Filhas da Mãe Terra/Daughters of Mother Earth Program”, para apoiar refugiadas, tanto do atual conflito entre Rússia e Ucrânia, como de qualquer outro país.

 

 

Toda guerra é lamentável e o resultado nunca deixa de ser acompanhado por muita dor. Seja na Europa, no Oriente Médio, na África ou em qualquer lugar.

Neste primeiro momento criamos um formulário para identificar como podemos ajudar as mulheres refugiadas e o que elas precisam de fato neste momento. Mais informações estão disponíveis no site do programa.

Vivemos no mesmo planeta, na mesma mãe terra, que pouco se importa com as linhas imaginárias que traçamos nela.

Todos e todas compartilhamos a vivência humana. Estamos em busca da felicidade e do conforto em nossos dias. E a melhor coisa que podemos fazer é estender a mão para quem mais precisa.

Ajudar quem perdeu tudo seja por motivação política, por uma catástrofe natural ou por um acidente. E nós vamos ajudar essas mulheres, mães, filhas, irmãs, amigas a passarem pelo momento difícil que estão vivendo.

 

 

E claro que ter o seu apoio também é muito importante para nós. Seja compartilhando os nossos conteúdos, seguindo o novo perfil @freefreeworld_ ou até apoiando financeiramente os nosso projetos. As instruções de como fazer isso estão lá no site do Free Free World.

E tudo que fizemos desde o laçamento está disponível neste link.

Também queremos compartilhar com você esse vídeo lindo sobre a nossa expansão.

Crescemos.

Transbordamos.

E tudo isso só foi possível por ter pessoas como você que acreditaram em nós durante todo o caminho.

Muito obrigada e vamos voar juntas <3


Angústias, angústias, angústias...

Pronta para mais um dos nossos bate-papos semanais?

Por aqui estamos prontíssimas, nessa segunda semana do mês que sinaliza que praticamente 1/3 do ano já passou.

Num piscar de olhos...

E com tanta coisa que gostaríamos de fazer, tantas outras que nem começamos, e o tempo que nunca parece estar a nosso favor.

É sobre as angústias (incluído a da dificuldade de administrar nosso tempo) que eu gostaria de conversar com você hoje.

 

Sabe Freefree, nossos dias, ou melhor, nossa vida, geralmente vai estar em um desses três momentos:

- o momento de alegria, realização e até euforia por algo bom que nos acontece

- o momento de tristeza ou dor, hora que precisamos de acolhimento, de suporte, de nos permitir curar

- o momento de estabilidade, marasmo, quando nada acontece (e a maioria dos nossos dias estará aqui)

Devemos apreciar as fases em que estamos felizes, curtir cada segundo, porque tanto elas, quanto as de dor, não duram para sempre. A vida tende a retornar ao patamar da estabilidade.

E é quando estamos assim, meio paradas, que começamos a ficar angustiadas, desejando uma novidade.

Às vezes a angústia é boa porque ela faz a gente se movimentar na direção daquilo que queremos.

Mas pode ser que a gente nem saiba ao certo o que quer, e isso nos deixa ainda mais angustiadas.

 

Começamos a comparar nossa vida com a das pessoas que vemos na internet e sofremos com isso, mesmo sabendo que estamos vendo um recorte da realidade e não o todo.

E quando estamos angustiadas, costumamos implicar com tudo, gerando adivinha o que... mais angústia. Que é um sentimento bem complexo diga-se de passagem. Ela vai da irritabilidade à insegurança, com muitos tons de cinza no meio.

A angústia vem quando sentimos que não somos suficientes, quando pensamos demais, quando tentamos mostrar só as nossas partes que achamos que são aceitáveis.

Combater nossas angústias também é uma forma de nos libertar.

E tem ainda outra modalidade de angústia, mais ligada à forma que vivemos hoje, do que com a nossa relação com nós mesmas.

Para quem vive ou vivenciou o home office na pandemia, é bem provável que você tenha se deparado com o trabalho que extrapola as barreiras. Mensagens toda a hora, uma necessidade de demonstrar que você está disponível, a vontade de terminar tudo no dia antes de se permitir relaxar e descansar.

Muita calma nessa hora!

Você não precisa responder o WhatsApp segundos após uma mensagem ter chegado. Isso nem é bom. Sempre melhor parar um pouco, refletir para não responder no calor do momento e falar algo que vai se arrepender depois.

 

É necessário estabelecer períodos de disponibilidade saudáveis e por isso que precisamos administrar bem o nosso tempo. Hora de trabalho é hora de trabalho. Suas refeições, pausas e momentos de lazer devem ser igualmente sagrados.

E se tem uma coisa que define o trabalho, é que ele nunca acaba. Não tente finalizar tudo se isso estiver desequilibrando sua rotina ou sendo prejudicial à sua saúde.

 

 

Há ainda a angústia de quem já voltou ao trabalho presencial e precisa conviver novamente com pessoas, talvez nem sempre agradáveis. Se relacionar é ao mesmo tempo o que temos de maior desafio e de mais belo nessa vida. Precisamos aprender a lidar com cobranças ou então saber cobrar as pessoas sem que isso transpareça a nossa própria angústia. Sempre válido lembrar que a falta de planejamento de alguém não pode ser a urgência do outro. Isso vale para exercitar a nossa organização e para não sofrermos quando alguém pedir algo de última hora.

Por fim, temos a angústia de quem, seja pelo motivo que for, não está trabalhando ou realizando as atividades que gostaria. Não somos herdeiras né Freefree, e mesmo se você for, é sempre bom ter algo pra dedicar os nossos dias. Liberdade só existe quando temos independência financeira. E se temos independência financeira, sempre bom ir atrás do que nos causa satisfação.

Mas se nesse momento, nem trabalho, nem dinheiro, nem satisfação estão no seu dia, o que você pode fazer é identificar o que está ao seu alcance. Você pode procurar um emprego, fazer cursos para se qualificar, ler livros, ver filmes, ganhar novas referências e mais cultura. O que você NÃO deve fazer é ficar angustiada por estar nessa situação. É possível sair dela.

 

Então seja qual for a causa da sua angústia, no trabalho, nos relacionamentos, em você mesma, aquilo que está te impedindo de avançar, eu só queria te falar que não vale sofrer por isso.

Tudo está em movimento e vai se encaixar ou estabilizar. Evite a angústia que, assim como a culpa, é um sentimento que dificilmente nos ajuda. Mas se estiver sentindo, permita-se sentir, de forma integral, porque é daí que pode surgir a força para se movimentar.

Que a sua semana seja leve e divertida!

Um grande beijo!


O sistema é falho com as mulheres?

Na terceira e mais recente temporada da série “A amiga genial”, uma cena chamou bastante a nossa atenção.

Antes de falar sobre ela, vale a indicação tanto da série da HBO quanto dos livros da Elena Ferrante que para além de muito bons, são necessários. Eles abordam questões muito profundas, passando por sexismo, maternidade, casamento, sexualidade, amizade e rivalidade feminina de uma forma atemporal.

 

O que vou falar agora não é exatamente um spoiler, mas se não quiser ler sobre essa cena é só pular para depois dos "x".

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A terceira temporada se passa na década de 70, e em um determinado momento as duas amigas, Lenu e Lila, estão em uma consulta com um médico, querendo saber sobre a pílula anticoncepcional. O médico pergunta sobre o casamento de uma das personagens e fortemente desestimula o uso do medicamento, considerando-o como algo ilegal e imoral. Afinal, o papel de uma mulher é dar filhos ao seu marido... Pensar que apenas 50 anos nos separam desse cenário e que até hoje existe quem concorda com o médico é algo profundamente doloroso.

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Estamos sim evoluindo na conquista do nosso espaço e liberdade, mas o sistema, como um todo, ainda é muito falho com as mulheres. Governos, empresas e sociedade falham quando ignoram a realidade de cada mulher ou não se mobilizam para serem mais inclusivos.

Falhamos quando temos mais de 19 mil bebês nascidos a cada ano de mães com idade entre 10 a 14 anos. Crianças e adolescentes que em muitos casos vão ter que abrir mão de oportunidades, de avançar em seus estudos e ter uma carreira sólida.

Falhamos quando somente agora, em março de 2022, aprovamos um projeto de lei que impede que serviços de saúde e operadoras de planos privados se recusem a ofertar métodos contraceptivos e técnicas de concepção cientificamente aceitos. E outro, que começou a ser discutido em 2014 e ainda não avançou, que desobriga consentimento entre marido e mulher para a realização de esterilização, seja laqueadura ou vasectomia.

 

Falhamos quando temos apenas sete Casas da Mulher Brasileira no país, um serviço muito importante de acolhimento para mulheres, enquanto temos 1 em cada 4 brasileiras acima de 16 anos, cerca de 17 milhões de pessoas, que já foram vítimas de algum tipo de violência. E ainda, 5 em cada 10 brasileiros (51,1%) apontaram ter presenciado algum tipo de violência contra a mulher no seu bairro ou comunidade.

Falhamos quando, mesmo com lei para garantir a paridade mínima de gênero nos cargos políticos, 82% das mulheres nesses espaços já sofreram violência psicológica, 45% já sofreram ameaças, 25% sofreram violência física no espaço parlamentar e 20% assédio sexual.

Falhamos quando temos um mercado de trabalho que cobra, de forma velada ou não, um desempenho extraordinário, com muitas horas extras de dedicação, ignorando que temos também uma vida familiar. Sem contar a saúde emocional, que é ainda mais negligenciada.

Falhamos quando entendemos que a inclusão de mulheres é positiva, mas não é oferecida a estrutura de suporte para que elas assumam esses lugares, seja pela falta de creches, educação, transporte, segurança alimentar, um verdadeiro leque de políticas, públicas ou empresariais, que deveriam ser adotadas para retirar a carga que recai sobre as mulheres.

 

Até as marcas falham em suas campanhas que tentam ser empoderadoras, mas caem em algo chamado “brandsplaining”. Se por um lado não se diz mais que uma mulher deve ser “bonita”, “magra” ou uma “boa dona de casa”, falar que as mulheres devem ser “corajosas” ou “melhores do que são”, não deixa de ser uma tutela sexista do que é esperado das mulheres.

Daria para listar outras situações que continuam sendo impeditivas para a nossa plena liberdade. O que podemos dizer é que o caminho para o progresso, mesmo que lento, é irreversível. Estamos trabalhando para uma mudança de cultura que garantirá a plena autonomia das mulheres. Mudar o sistema é um trabalho coletivo para que a gente tenha um futuro onde meninas e mulheres em toda a parte possam decidir cada aspecto da sua vida.

É nisso que acreditamos e pelo que estamos trabalhando. Vamos juntas?

Um beijo!


Tem apenas uma coisa que você precisa procurar...

Sabe, parece que sempre estamos à procura de algo.

Que tem alguma coisinha faltando para que a nossa vida seja “ideal”.

Às vezes isso pode ser um emprego melhor, com um salário maior ou mais alinhado com nossos gostos e valores. Às vezes são os nossos relacionamentos que não são satisfatórios, sejam familiares, amorosos ou de amizade. Ou então tem algo na nossa aparência que continuamos implicando.

Enquanto estamos por aí, sempre na busca do que acreditamos faltar em nossa vida, tem apenas uma coisa que deveríamos estar constantemente, e de forma consciente, buscando: nossa potência.

Porque tudo o que a gente precisa de fato já está em nós.

Temos uma vida e só cabe a nós decidir o que queremos fazer com ela.

Todo dia temos a escolha de viver, realmente viver, da forma que desejamos.

Ao se levantar da cama você pode fazer um exercício e se perguntar: “Hoje eu vou ficar implicando com meu corpo ou vou me curtir, do jeito que sou?”; “Hoje eu vou lamentar o fato de não ter alguém para compartilhar a vida ou vou estar aberta para a possibilidade de conhecer novas pessoas?”; “Hoje vou ficar apreensiva ou estar disposta a todas oportunidades que surgirem, para o que der e vier?”.

 

É fundamental saber da nossa potência, que temos a capacidade de lutar pelos nossos sonhos, a competência de resolver os problemas que surgirem, e a leveza que nos permite viver as coisas boas, ou mesmo saber identificá-las, já que muitas podem passar batidas quando estamos nos preocupando com o que não temos.

Disse tudo isso porque o assunto de hoje é o oposto da nossa potência. Queria falar sobre as situações onde realmente somos impotentes. Elas existem.

Somos impotentes quando temos alguém fisicamente mais forte ou armado ameaçando nossa integridade física. Somos impotentes quando o simples fato de estar em um transporte público ou na rua pode motivar comentários desagradáveis ou até assédio. Nos sentimos impotentes quando não temos controle sobre a nossa saúde ou quando ocorre um aborto espontâneo. Somos impotentes quando não temos acesso à educação e à informação. Impotentes quando nos impedem de acessar métodos contraceptivos ou jogam essa responsabilidade para nós, como se fosse exclusivamente nossa. Nos sentimos impotentes quando sofremos com racismo, discriminação de gênero, ou até os dois ao mesmo tempo.

Nenhuma dessas situações é nossa culpa, mas sentimos raiva quando, por algum motivo, não podemos agir, combater ou evitá-las.

Em um mundo ideal, nada disso seria uma preocupação. Nos sentiríamos seguras em qualquer lugar, o preconceito não existiria e poderíamos manifestar indignação sem pôr em risco a nossa própria vida.

Por anos tivemos “nossas asas cortadas”, sem possibilidade de viver livremente, porque certos comportamentos eram esperados de nós. Esperavam que fôssemos submissas, que em uma determinada idade já tivéssemos uma família e um homem para nos proteger, que estivéssemos sempre arrumadas, que não gritássemos ou brigássemos, afinal isso é um comportamento masculino.

Eu e você sabemos o quão absurdas são essas expectativas, mas a sombra delas ainda paira sobre nós e impede muitas mulheres de viverem de forma completamente livre, em sua máxima potência.

 

Muitas acabam entrando em relacionamentos abusivos “afinal melhor ter um relacionamento ruim do que nenhum”. Outras se sentem fracassadas por não ter conseguido engravidar, como se nossa experiência humana pudesse ser reduzida ao papel da maternidade. Outras aceitam uma vida que não querem levar, apenas por não acreditar ser possível outra realidade.

Temos muitas situações de impotência para lidar e combater em uma escala maior. Por exemplo os casos de guerras, do crescimento econômico que vem acompanhado de destruição ambiental e desigualdade na distribuição das riquezas, entre outras questões de maior complexidade, envolvendo diversas esferas.

Problemas que vamos lidar como sociedade.

Mas o que podemos fazer agora mesmo é avaliar o que queremos para nós, para a nossa vida. Observar o que está impedindo a nossa movimentação e traçar uma rota para mudar.

Você não tem controle de tudo o que vai acontecer na sua vida, mas você tem em você a capacidade para lidar com aquilo que surgir.

Não duvide da sua potência.

Busque-a.

Um grande beijo!


Você não é louca nem fraca

Triste, louca ou má...historicamente temos sido qualificadas. Às vezes até por uma característica que nem é a mais marcante que temos.

Se queremos dançar até o chão, não podemos ter conteúdo. Se somos assertivas, somos chamadas de agressivas. Se gostamos de comprar roupas, maquiagem ou seja lá o que for (com o nosso dinheiro) só podemos ser fúteis. Se expressamos nossa sexualidade, somos subversivas. Se não estamos interessadas, somos frígidas. Se nos emocionamos durante uma discussão, falam que somos “sensíveis demais”. E por aí vai...

É verdade que uma mulher livre incomoda muita gente.

Mas seguimos, a despeito de todos os rótulos, vivendo a vida que queremos. Acreditando nos nossos valores.

Historicamente e no dia a dia não foram poucas as vezes que tentaram nos silenciar. Quando estamos falando e somos interrompidas, quando tentam manipular a narrativa sobre algo que aconteceu e nos convencer de que a nossa percepção é que não foi precisa (o famoso gaslighting), entre tantas outras formas de abuso psicológico.

Aliás, você sabe a origem do termo gaslight? Ele surgiu a partir do filme “Gas Light” (À Meia Luz), de 1944, onde um marido tenta convencer a mulher de que ela é louca, manipulando elementos do ambiente e insistindo que ela está errada ou que se lembra de coisas de maneira incorreta, fazendo com que a mulher duvide da própria sanidade. Um dos elementos do filme são as lâmpadas alimentadas a gás, que piscam, algo notado pela mulher e que o marido tenta dissuadir que aconteceu.

Tentam jogar para nós a culpa de um assédio sofrido. Como se tivéssemos provocado.

E quem nunca ouviu um “ela deve estar de TPM” quando na verdade só estávamos expressando nosso descontentamento com algo, sem hormônios envolvidos?

De todas as graves consequências que essas inúmeras tentativas de nos calar geram, uma das piores talvez seja a de nos sentirmos impotentes. Incapazes de provar o nosso ponto, de impor a nossa verdade, de questionarmos se somos qualificadas para nos expressar.

 

Até na revolução francesa quando se discutia os pilares da liberdade que deveriam ser universais para todos, a mulher que questionou sobre os direitos femininos acabou sendo assassinada por isso.

Não podemos abrir mão do nosso lugar de fala, da nossa voz, dos espaços que há tanto tempo estamos lutando para conquistar.

Tentam nos fazer acreditar que algumas características que temos são ruins, nos colocar como pertencentes ao “sexo frágil”, sensíveis demais, como se sensibilidade fosse uma fraqueza.

Se o mundo tivesse essas características consideradas “femininas”, como empatia e sensibilidade, pode ter certeza que tudo seria muito melhor.

Não precisamos entrar em conflito com quem somos. Toda mulher deve ser livre para viver plenamente sua existência, da forma que acredita ser a melhor.

Então você pode ser sensível, assertiva, tímida, extrovertida, tranquila, agitada, ser uma combinação de fatores ou simplesmente ser você em toda a sua complexidade.

 

O que você não pode é ter medo de se expressar. Fomos silenciadas por muito tempo pela sociedade, em nossos trabalhos, nos lugares que eram considerados inadequados para nós. Isso não vamos aceitar. Pertencemos a todos os lugares e podemos nos manifestar sobre tudo o que quisermos. Somos mulheres livres!

Um beijo e uma ótima semana!


Nossa união é imprescindível

Estamos aqui diante de mais um Dia Internacional da Mulher, aquele em que podemos celebrar as conquistas que tivemos ao longo dos anos e chamar atenção para o que ainda falta para chegarmos à ideal igualdade.

Sabemos dessa caminhada, já falamos sobre ela inúmeras vezes. E esse ano propomos uma reflexão diferente. Ainda vemos algo que sempre é difícil de aceitar: o sexismo entre mulheres.

Para quem estuda a história do feminismo não há consenso nessa teoria. Uma vez que o sexismo seria uma “superioridade de gênero”, não é possível que exista esse entendimento entre quem é semelhante, mas o que se fala é que existe, entre as mulheres, a reprodução do sexismo e do machismo.

Na prática, uma pessoa machista, que replica o sexismo, é aquela que acredita que homens e mulheres têm papéis distintos na sociedade, que a mulher não pode ou não deveria se portar e ter os mesmo direitos de um homem ou que julga a mulher como inferior ao homem em aspectos físicos, intelectuais e sociais.

Nas palavras da consultora em diversidade Viviana Santiago, não é que uma mulher seja machista, mas ela pode, sim, reproduzir o machismo em suas atitudes e pensamentos, já que todos nós, independentemente do gênero e de outros recortes de identidade, somos criados sob estruturas machistas.

Desde crianças tentaram nos moldar para papéis pré-estabelecidos. Ganhamos bonecas, brincamos de casinha. Não que seja errado uma menina brincar com essas coisas se ela quiser, mas dá para entender a carga cultural por trás disso? Anos de associação de que o lugar da mulher é sendo dona de casa, responsável pelas tarefas domésticas e de cuidado com os filhos.

 

 

Novamente, quem opta por esse caminho não necessariamente é submissa, conivente com o modelo patriarcal, desde que essa seja uma e-s-c-o-l-h-a, e não uma imposição cultural.

Vivemos também até os dias de hoje uma ditadura da beleza. Por quantos anos as mulheres foram o público-alvo de cremes antiidade, como se uma mulher perdesse seu valor e deixasse de ser interessante com o passar dos anos?

No sexo abrimos mão do nosso próprio prazer por estarmos preocupadas demais em agradar. Como se a sexualidade não fosse um momento de troca, e sendo assim, algo com reciprocidade.

Vivemos sob um subconsciente coletivo de que deveríamos ser comedidas em nossas atitudes, não ser agressivas, controlar nossas emoções e reações para não parecermos “loucas” ou “histéricas”, estar sempre com um sorriso no rosto, bonitas, bem vestidas (mas nada muito provocador). Isso teve sim um peso na forma de nos mostrarmos ao mundo, de nos relacionar e até na relação com nossas semelhantes, outras mulheres.

 

 

A professora Joan Roughgarden, que já lecionou na Universidade de Stanford, compartilha sua experiência como mulher trans para confirmar algo que já notamos: as mulheres têm que trabalhar duas vezes mais para provar que são boas no que fazem. “As mulheres são consideradas incompetentes, a menos que se prove o contrário, e os homens são considerados competentes, a menos que se prove o contrário”, diz.

E até nas áreas em que fomos historicamente responsabilizadas, como os trabalhos domésticos onde uma divisão mais justa é urgente, muitas mulheres ainda não se sentem confortáveis ao delegar. “Ah, meu marido vai fazer tudo errado”, “se ele for responsável pelo jantar, as crianças vão viver a base de pizza”, e por aí vai.

Devemos parar de tentar ser supermulheres, para sermos nós mesmas.

Talvez no ambiente de trabalho, esse “sexismo” se torne ainda mais evidente:

- Quando uma mulher dona de um negócio deixa de contratar uma funcionária por estar grávida ou pergunta se ela tem planos de ter filhos em breve

- Quando uma mulher líder prefere promover um homem pois dessa forma se sente menos ameaçada em seu cargo

Mikaela Kiner, CEO da consultoria de recursos humanos Reverb, fala um pouco sobre isso: “O preceito de “um lugar à mesa” vem da crença de que a diversidade é obrigatória, mas não útil. Na verdade, há muitas evidências de que equipes mais diversificadas têm melhor desempenho, são mais inovadoras, produzem mais receita e lucros maiores. Quando as mulheres adotam essa mentalidade de escassez e lutam entre si, isso é um impeditivo para todas as mulheres. Se uma mulher quer progredir, o melhor caminho é defender as mulheres ao seu redor, resultando em mais oportunidades e maior sucesso para todas”.

Ela também fala sobre a reprodução de valores que nos foram impostos. “Podemos internalizar mensagens patriarcais de que as mulheres não são tão fortes, competentes e capazes quanto os homens. Isso é conhecido como sexismo internalizado. As mulheres absorvem inconscientemente crenças sobre seu lugar de direito, e essas mensagens aparecem em como julgamos umas às outras. Isso pode nos levar a maltratar, subestimar e se distanciar de outras mulheres para aumentar o poder e posição entre os homens. Além disso, a liderança bem-sucedida foi há muito definida pelos homens. Com poucos modelos femininos, as mulheres profissionais imitaram os homens para encontrar aceitação e progredir”.

A especialista propõe uma reflexão sobre esse assunto com algumas perguntas:

• Você julga outras mulheres por escolhas que não faria?

• Você critica as mulheres por pequenas transgressões e perdoa os homens por outras maiores?

• Você dá desculpas para o comportamento dos homens com um entendimento de “eles são assim mesmo”?

• Você compete mais do que colabora com suas colegas?

Ocupar lugares no mercado de trabalho e em posições de liderança também deve pressupor abrir espaço para mais mulheres.

Precisamos rever valores que ainda pairam sobre nós. Por exemplo, é recente a estatística de que 93% das mulheres acham que os homens entendem mais de dinheiro do que elas.

Não precisamos ser idênticas, compartilhar os mesmos valores, ter os mesmos gostos, levar uma vida que não acreditamos, mas precisamos, nesse dia 8 de março e em todos os dias do ano, nos unir porque isso faz a diferença.

Precisamos combater os pensamentos e ações que perpetuam o machismo por aí como:

- Julgar uma mulher que não se depila ou que gasta bastante tempo e dinheiro em procedimentos estéticos

- Criticar mulheres que mantêm seu trabalho integral após a maternidade ou aquelas que deixam o emprego para se dedicar aos filhos

- Achar que uma mulher sem filhos ou relacionamento é menos completa ou feliz

Entre tantos outros exemplos que estão nessa lista aqui.

E o que estamos fazendo?

Você bem sabe que o maior objetivo do Free Free é apoiar as mulheres em seu caminho para a liberdade. Sabemos das diversas realidades e que todas nós podemos dar um passo adiante para a uma vida mais plena, onde decidimos tudo que queremos. Mas não podemos deixar de atuar para ajudar quem mais precisa.

Se você nos acompanha no Instagram sabe que estamos com um projeto muito importante junto com o Ministério Público, chamado Eu Me Empodero. Vamos realizar workshops em todo o estado de São Paulo junto com mulheres que são sobreviventes da violência doméstica.

 

Foto: Wendel Castro

Acolher essas mulheres, ouvir suas histórias e conhecer as situações inimagináveis pelas quais elas passaram, ver sua força, sua superação e sentir o quão importante é ser rede de apoio para que elas vivam seu potencial completo é o nosso combustível.

Nossa lição de casa para esse 8 de março pode parecer simples, mas é muito importante. Devemos parar de reproduzir valores que simplesmente não fazem sentido entre as mulheres.

Que a gente possa:

Ser amigas ao invés de rivais

Apoiar ao invés de julgar

Acolher ao invés de criticar

Ter empatia ao invés de querer competir

Como disse a maravilhosa Paula Cohen “As mulheres são como água, crescem quando se encontram”.

Vamos crescer juntas!

Um beijo!


Inspire e seja inspirada – não queira competir

Lembra do Papo no Banheiro que a Yasmine fez? Os vídeos estão lá no insta dela, como esse aqui.

Trouxe o tema do banheiro porque esse é um ótimo lugar para encontrar demonstrações espontâneas de parceria feminina.

Você está lá, num espaço limitado, com uma acústica não muito favorável, então acaba ouvindo as conversas alheias.

E já que estamos compartilhando o mesmo recinto acabamos interagindo. É tão bom quando completas desconhecidas viram uma pra outra e falam “amigaaa você é maravilhosa” ou “amei a sua roupa!”. Sem contar os conselhos, nem sempre solicitados, mas muito pertinentes como: “eu não sei quem é esse cara, mas você merece mais!”

Para além dos banheiros, é muito reconfortante saber que esse movimento de mulheres apoiando e levantando outras tem se expandido para todos os lugares. Cada vez mais vemos exemplos de empatia, de sororidade, de união em prol de todas.

Mas não se muda anos, talvez séculos, de uma cultura de rivalidade que existiu, fez parte da nossa formação e infelizmente ainda persiste.

 

Espelhoespelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?”

Essa frase da madrasta da Branca de Neve é um exemplo disso. Quando uma mulher não aceita não ser a número 1 e quer destruir quem a ameaça.

A rivalidade entre mulheres nada mais é do que nos colocar em uma situação constante de competição.

 

Crescemos achando normal existir um concurso de beleza para escolher uma única mulher que seria a mais bonita do universo. Como se a beleza não pudesse ser plural. Como se não fosse relativa ou ainda um conceito construído.

Vimos a rivalidade nos desenhos, nas novelas e nos filmes incontáveis vezes reforçando os estereótipos que ignoram a profundidade de cada ser humano.

Sempre temos a heroína boazinha e sua antagonista, ruim, e elas precisam ter algum confronto onde uma das partes sairá perdendo. Essa dicotomia ignora completamente o fato de que na vida real, todas temos sentimentos bons e ruins, inseguranças, e que não precisamos lidar com isso de um jeito que prejudique quem "seria a nossa oponente".

Essa competição nem sempre é explícita ou manifesta. Nós mesmas podemos ativar esse mecanismo no nosso dia a dia sem nem perceber. Por exemplo, ao ver o post de uma amiga que está fazendo algum tratamento estético, não é meio que automático nos avaliarmos pra saber se também não precisamos desse procedimento? Podemos ou ficar inseguras com a nossa aparência ou julgar a da nossa amiga. Ao comparar, estamos de certa forma competindo.

E tem outras situações bastante estranhas. Normalizamos que alguém chegue para uma menina, uma criança, e diga “ah essa daí vai dar trabalho quando crescer”. Oi? Por que? Trabalho pra quem? Para os pais afinal será objeto de desejo entre os “potenciais pretendentes”? Trabalho para as mulheres, pois será uma ameaça aos casamentos alheios?

Não, nada na aparência de uma menina é um indicativo de seu comportamento. Ela vai apenas ser o que quiser e se relacionar com quem quiser. Falar que vai dar trabalho não é elogio.

 

E quando falamos em relacionamentos então... fica ainda mais complicado.

Talvez você já tenha sentido ou então conheça alguém que passou por isso: você está com seu/sua namorado/a e fica brava com as mulheres que estão lá, apenas existindo, com medo ou raiva de que seu parceiro/a possa olhar, se interessar ou flertar com elas.

Nossas inseguranças devemos resolver no próprio relacionamento, com nós mesmas, na terapia. Não procurando alvos para culpar.

Outra coisa injustificável, mas frequente, é sentir ciúmes de ex. Ter tido um passado juntos não quer dizer nada no momento presente, nem faz da nova namorada automaticamente sua rival. Relacionamentos são dinâmicos, mudam, acabam. Pode ser que ao final você nunca mais verá a pessoa. Ou pode ser que vocês tenham algo em comum, filhos, amigos e vão conviver. E se a pessoa estiver em um novo relacionamento, não sinta que a namorada está tirando algo que foi seu, invadindo seu território. Pessoas não são posses. Aprenda a desapegar do passado.

Competimos porque parecemos “precisar” de uma validação externa das qualidades que temos, que na verdade deveriam importar apenas a nós mesmas.

Não queira ser a mais bonita, a mais inteligente, a mais engraçada. Apenas seja você. E se aprecie. Claro que você pode desenvolver habilidades sociais, competências novas e cuidar da sua aparência para deixá-la da forma que te agrade. Mas faça isso por você, não para competir e ficar acima de outras mulheres em um pódio invisível.

Se deixamos essa rivalidade nos afetar, entramos em um ciclo onde desvalorizamos nossos atributos ou conquistas e superestimamos o sucesso alheio. Prejudicamos nossa saúde emocional e autoestima ou, pior ainda, reagimos de forma agressiva criticando de forma gratuita uma mulher, seja por sua aparência, por algo que ela fez ou disse, apenas para deixá-la pra baixo. Sem tentar entender o contexto, sem saber pelo que ela está passando. Sem ter consciência que nossas palavras também machucam. Não importa se é uma mulher bem sucedida, famosa, bonita, supostamente bem resolvida, por que tantas de nós ainda tentam diminuir outras?

Até na maternidade existe competição:

 

 

Vivemos sim em um mundo que tentou por muito tempo nos colocar em caixinhas, nos classificar entre boas e ruins, pervertidas ou santas, para casar ou não, que cobrou uma aparência ao mesmo tempo padronizada e inacessível. Parte de combater isso é não deixar que essa rivalidade persista entre nós.

Como disse Simone de Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

Queremos um mundo onde as mulheres possam dividir suas conquistas, não tenham medo de expor suas vulnerabilidades, não sejam constantemente julgadas e, principalmente encorajem outras mulheres a abraçar suas qualidades. Que a gente se inspire e seja inspiração umas das outras. Não estamos em disputa.

 

 

No próximo post vou falar um pouco sobre essa questão da competição e sexismo entre mulheres no ambiente de trabalho.

Até breve sua maravilhosa!