Prazer & outras drogas

I can't get no satisfaction, I can't get no satisfaction

'Cause I try and I try and I try and I try

I can't get no, I can't get no…

 

Dia 917319027912 da quarentena e eu tenho uma confissão a fazer: acho que desaprendi a ser feliz!

 

Unsplash/Engin Akyurt

 

Tudo bem, é compreensível, né? Não dá pra ser feliz e ser brasileiro, atualmente. Ser feliz no momento atual do Brasil é fechar os olhos para todas as coisas em volta. Mas será que precisamos mesmo continuar nesse limbo de tristeza, insatisfação e angústia 24 horas por dia?

 

 

Série: The Middle (2009)

Hoje, vamos refletir sobre a satisfação. Esse sentimento que, assim como a felicidade, também é muito procurado por aí.

 

A satisfação é um sentimento de contentamento através do prazer. Na verdade, ela é bem mais que isso, mas não precisa ter esse peso tão grande de felicidade. A satisfação você pode encontrar em qualquer pequeno resquício de prazer no dia-a-dia.

Filme: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)

 

Podemos encontrar a satisfação em…

 

Tomar um banho bem quentinho antes de dormir.

Ser capaz de cuidar de si mesma.

Olhar-se no espelho e admirar o que vê.

Aquele cheirinho de café do vizinho pela manhã.

Tocar com os pés descalços na grama molhada.

Ou se tocar, para dormir bem gostosinha.

 

Sim, amigas, estamos aqui falando de prazer sexual também! A satisfação engloba todo aquele nhenhenhém de satisfação profissional, sobre ser feliz na carreira e etc. E sim, isso importa, mas sabe o que importa mais? Você!

 

Sua satisfação pessoal engloba tudo aquilo que te dá prazer, que te dá esses pontinhos de felicidade ao longo do dia. E o prazer importa!

 

O prazer, sexual ou não, é responsável pela produção de diversos hormônios que são necessários para o bom funcionamento do seu corpo e da sua mente.

 

O prazer é um mecanismo de defesa do nosso instinto de sobrevivência.

 

Quando um bebê nasce, ele sente prazer na sucção. Esse é o nosso primeiro estímulo de prazer em prol da sobrevivência da espécie. Sentimos prazer para nos alimentarmos corretamente, como nosso corpo precisa.

 

Os bebês também sentem esse estímulo de prazer durante toda a fase que chamamos de fase oral. E por toda a vida, todas as nossas áreas revestidas de mucosas nos transmitem prazer.

 

O prazer faz parte da nossa natureza! E tudo o que bloqueia o prazer é causa de sofrimento, uma vez que o corpo vê a falta de prazer como uma limitação a este organismo.

 

E sabe por que você sente falta de prazer de forma tão agressiva para o seu corpo e sua saúde mental?

 

Quando ocorre sensação de prazer em nosso organismo através de estímulos periféricos pelos sensores, ocorrem também a produção de mediadores químicos em nosso corpo, como noradrenalina, dopamina, serotonina, endorfina, e outros, que vão estimular centros do prazer situados no cérebro. A produção desses hormônios são como combustível para diversas tarefas que nosso corpo precisa fazer para sobreviver.

 

Então, teoricamente, talvez eu e você possamos fazer um acordo:

Que tal buscarmos essas pequenas dosagens de felicidade ao longo do dia?

Isso também é autocuidado!

Para se aprofundar no assunto...

Dessa vez, o material de apoio vem de você.

Responda, à mão em um caderno:

Quais são as coisas que te fazem ter aquela satisfaçãozinha pessoal?

Você está se importando com o seu próprio prazer?

Como enxergar as pequenas felicidades da vida em meio ao caos?

E se precisar de uma mãozinha na hora de liberar alguns hormônios de prazer, ouça nossa playlist para dançarmos juntinhas quando tudo isso acabar (que tal começarmos agora?)

 

 


Qual a sua atual motivação?

Hoje, queríamos abrir um diálogo com você, nossa querida leitora. O que te move? O que te fez levantar hoje?

A motivação é tudo aquilo que te faz continuar, que te faz querer seguir. Seja uma meta, seja a sua fé, seja o amor por alguém, seja você mesma. Qual é a sua motivação?

Nós somos motivados, principalmente, pela busca do bem-estar e do prazer, o que explica a satisfação e a procura pela felicidade serem buscas constantes em diversas culturas diferentes, é uma questão mais instintiva.

Segundo a psicologia, as nossas motivações podem ser explicadas sob duas óticas: impulso e atração.

> As motivações guiadas pelo impulso são regidas pelos nossos instintos e pulsões. Neste âmbito, as decisões são tomadas com base em fatores externos.

> A motivação por atração corresponde aos estímulos internos que cada pessoa vê em determinada situação. Deste modo, um objetivo pode ser desejado por um indivíduo, enquanto, que para outro, o mesmo é indiferente.

Assim, os fatores de atração variam de acordo com as expectativas de cada um de nós em relação à vida como um todo. A motivação de um não pode ser a mesma motivação de outro, ou pelo menos não têm o mesmo peso, ou o mesmo significado.

Aqui, queremos propor um exercício: vamos estipular novas metas para ser a nossa motivação desse ano?

 

 

Eu sei, tudo anda muito incerto, mas busque no seu mundo metas que você consiga cumprir a curto prazo, como ler 3 livros ao longo do mês, ou não comer carne uma vez por semana durante 4 semanas.

Comece aos poucos e depois me diz o que achou?

Para se aprofundar um pouco mais…

 

Leia:

 

1. Motivação, uma necessidade intrínseca ao ser humano, por Sofia Andrade

2. Tipos de motivação na psicologia, por Tiago Azevedo

 

Assista:

 

1. A surpreendente ciência da motivação, por Dan Pink no TedTalks

 

Ouça a nossa playlist motivadora no Spotify: Motive-se como uma garota

 

 


Viver (com)paixão

Como sentir compaixão em tempos de... ranço?

Quando julgar e cancelar são ações muito mais fáceis do que compreender e educar?

Vivemos um tempo de muita tensão, de cansaço, de tristeza, de debates que logo se tornam apaixonados, não no sentido bom, mas no de virar um discurso acalorado que nos impede de ver com imparcialidade.

É nesse terreno que mais precisamos de compaixão.

Mas o que é compaixão? E qual a diferença da empatia? É simples. A compaixão contempla a empatia, que nada mais é do que “sentir” a dor do outro, se colocar no lugar. Mas a compaixão tem muitos outros sentimentos envolvidos e também pressupõe uma ação para ajudar quem está sofrendo ou precisa de acolhimento.

Ter compaixão parece fácil, mas não é. Buscar o autoconhecimento e o amor ao próximo quando estamos em um ambiente zen, meditando em meio a natureza não é um desafio. Os desafios estão no dia a dia, onde podemos de fato exercitar a compaixão: quando vemos uma situação de injustiça, quando alguém é agressivo de forma gratuita, quando nos deparamos com alguém que pensa de uma forma completamente diferente de nós.

Como se conectar com alguém, entender seu ponto de vista, quando essa pessoa tem opiniões e valores tão diferentes dos meus? Não existe uma só resposta para isso, mas aqui vão algumas sugestões de como incluir a compaixão na sua rotina. Porque compaixão você já tem. Todos temos. É um sentimento no leque de tantos outros pelos quais passamos.

 

Crédito: Daniel Barreto/Unsplash

Liberte-se do ego

Você pode pensar “ah pronto, além de ter que sentir simpatia por pessoas que não me agradam, agora preciso fazer um mergulho em mim que requer anos e anos de terapia?”. A resposta para isso é: calma! Mas sim, para olhar para o outro precisamos parar um pouco de olhar só para dentro. Não que se conhecer não seja importante, assim como validar ou mesmo atualizar nossos valores de tempos em tempos. Mas basta olhar para o lado para ver como a nossa sociedade está sempre tão centrada no seu próprio umbigo que sequer enxerga o que acontece ao redor. Por outro lado, nós estamos sempre preocupadas em ser julgadas, analisando em nossa mente cem vezes algo que falamos ou fizemos e dando voz para a insegurança que insiste em nos atormentar com pensamentos como “o que vão pensar disso?”. A verdade é que as pessoas não vão reparar tanto. Que nem naquele filme “Ele não está tão afim de você”, podemos adaptar para “As pessoas não são tão críticas com o que você faz”. Nós sempre estamos centradas e avaliando tudo que fazemos, o tempo todo. Talvez seja o caso até de exercitar uma autocompaixão. Parar de pensar demais e esmiuçar toda e qualquer ação. Aceitar que fizemos ou falamos algo porque era isso que estávamos sentindo naquele momento. Tudo bem se não foi a melhor coisa. A vida não é uma prova onde ganhamos ou perdemos pontos ao acertar ou errar. A vida é para ser vivida e sentida.

 

Ele não está tão afim de você (2009) - @cinematologia

 

Aprenda a dialogar fora da bolha

É natural nos aproximarmos de pessoas que pensam de forma semelhante a nossa e é muito bom estar entre elas. Vivendo nessas “bolhas de semelhança” podemos esquecer que existem pessoas que não concordam com coisas que para nós parecem básicas. Cada pessoa é uma somatória das experiências que viveu e das pessoas que serviram de referência. Num planeta com mais de 7 bilhões de pessoas, quantas possibilidades de narrativas diferentes não existem? E não precisa pensar muito longe, por exemplo, ao avaliar uma cultura onde consideramos que as mulheres são oprimidas. No seu próprio prédio ou bairro certamente coexistem pessoas que são completamente diferentes. Saber respeitar as diferenças, mesmo quando não concordamos com um ponto de vista é o primeiro passo para a compaixão.

 

Crédito: Alex Alvarez/Unsplash

Nenhuma dor é boba

Já que falamos de viver em bolhas, precisamos destacar que aquilo que é óbvio para nós pode não ser para os outros. Nós podemos achar uma grande bobagem alguém se sentir mal por causa do seu corpo ou seu cabelo. Afinal, “padrões de beleza estão aí para serem quebrados” ou “que bobagem se importar com aparência! A beleza está na diversidade”. Mas tem quem se importe. Tem pessoas em que isso dói. E não é porque para nós algo já está superado que para outras pessoas isso não tenha um peso. Não minimize a dor alheia. Não fale que não importa. Não diga “para de ser boba” ou “isso é bobagem”. Ouça. Ajude a pessoa a enxergar que a sua dor pode ser trabalhada e que você está lá para ajudar no que puder. Ter compaixão é acolher e estar próximo.

 

Crédito: Dzana Serdarevic/Unsplash

 

Seja gentil

Se estamos em um dia ruim, parece que o universo conspira para que cada coisinha que poderia dar errado dê mesmo. A tristeza e a irritação se amplificam, até mesmo em situações que normalmente não teriam importância. Sabemos que dias assim acontecem e que eles passam. Mas às vezes estamos bem e alguém da nossa família, trabalho ou círculo de convivência não está. E na primeira resposta atravessada, passivo-agressiva ou patada, nossa tendência natural é a de revidar. De jogar o erro ou a forma ruim de se comunicar na cara da pessoa. E no calor do momento isso acontece bastante. Mas precisamos disso? Precisamos provar que estamos certas criticando os outros? Não precisamos. É possível mostrar que se está certa sem partir para um combate. E não precisa ser uma santa ou deusa budista para ser inabalável diante de uma situação que nos tira do sério. E já aviso que tem vezes que não será possível segurar a bronca. Mas considerando que são pessoas que gostamos ou que devemos conviver, é válido fazer o exercício da comunicação não violenta, da escuta empática e pensar “por que a pessoa está agindo assim?”, “qual dor ou necessidade ela está sentindo?”, “eu posso fazer algo para ajudar?”. Se todos pensassem em como poderiam tornar o dia de alguém melhor, minimamente que seja, nossa evolução como sociedade seria incrível.

 

Crédito: Clay Banks/Unsplash

 

Porque compaixão é isso. Algo que todos podemos fazer no dia a dia, o simples ato de ouvir e acolher sem julgar.

Não se trata somente dos atos heroicos ou de grande sacrifício pessoal ou material que vemos na TV e internet. O exercício de olhar e focar no outro é algo que está ao alcance de todas nós. Cada novo dia oferece uma situação em que podemos exercer a compaixão em algum nível. Ela é um sentimento, assim como a raiva, o medo, a insegurança e o amor. Faz parte da experiência de viver nesse planeta.

Para viver os nossos dias de forma mais leve, considerar os sentimentos de quem compartilha essa existência com a gente é transformador.

Tenha compaixão e viva com paixão.

Nós precisamos de outras pessoas, mesmo daquelas que não concordamos, porque essa é a única forma de evoluir. Sem essas situações que desafiam nossos sentimentos e valores, simplesmente não sairíamos do lugar. Quanto mais exercitamos esse olhar, mais entendemos que não existem “eles x nós”.

O que nos torna semelhantes é muito maior do que aquilo que nos diferencia.

Seja você, mas se permita se colocar no lugar do outro.

 

 


Por que estamos tão tristes?

“Sad as haunted music in the rain                                                     

It's born of grief and born of woe

But I hear it call and I've got to go

Where can I be headed for

The blues call in my north”

 

“Triste como música assombrada na chuva

Nasce da dor e nasce da angústia

 Mas eu ouço me chamar e tenho que ir

 Para onde posso ir

O blues chama no meu norte”

 

 

Para falar de tristeza é justo começar com uma música da mulher que personifica os blues, seja o estilo musical ou o sentimento, que é a Billie Holiday. Sua voz única e tudo que ela passou na vida contribuíram muito para que ela fosse a intérprete tão poderosa que foi.

Sua vida foi difícil desde a infância, passando pela pobreza, abandono, mais de uma experiência de violência sexual, a necessidade de se prostituir para sobreviver, inúmeros relacionamentos abusivos, afetivos e de trabalho, e a dependência química.

Todas as tristezas que ela passou moldaram quem ela foi, e moldaram também a arte que ela criou, inspirando tantas outras.

Ao nos depararmos com uma história como a dela é inevitável não pensar “como eu posso estar triste se nada disso aconteceu comigo?”, bom, não é necessário ter acontecido nada com você para sentir-se triste. A tristeza existe e só.

Podemos ficar tristes às vezes sem motivo algum. Como se sintonizássemos em alguma frequência que não é a nossa e simplesmente nos sentimos para baixo, desanimadas, sem ver uma perspectiva de que as coisas vão melhorar.

Aliás, ouvir uma música triste quando estamos tristes tem um poder catártico de nos ajudar a melhorar, botar para fora aquela dor.

Mas há uma diferença bem grande em estar triste momentaneamente por algum motivo ou estar triste há muito tempo. Quando estamos tristes por algum motivo, basta resolver essa questão, deixar passar e seguir em frente. Mas quando a tristeza não é algo motivado, apenas sentido, cabe a nós iniciar todo um processo de tentar nos sentir bem.

Devemos lembrar que todo o contexto que vivemos hoje contribui para sentir ao menos uma dorzinha, um aperto no peito. E, diga-se de passagem, quem não está um pouco triste no momento, está vivendo em negação.

E mesmo antes do mundo sofrer com a pandemia, é normal que a vida seja uma sucessão de momentos felizes, tristes e cheios de sentimentos diferentes. É assim a vida mesmo. Nós precisamos ficar tristes da mesma forma que precisamos ficar felizes.

A tristeza é tão importante quanto o amor.

Sentir nossas dores, processar o que nos machuca e está causando a tristeza deveria ser naturalizado como sentir fome ou sono. Sem uma tristezinha aqui ou lá, como valorizamos os momentos felizes? Aliás, as pequenas alegrias que tornam o dia a dia mais leve, seja a sua música favorita tocar em algum lugar sem ter sido você que colocou, uma mensagem saudosa de uma pessoa querida, comer seu prato favorito, um pôr do sol incrível, achar um dinheirinho esquecido, receber um elogio, tudo isso pode passar batido quando não temos com clareza a régua do que é estar triste.

Não podemos esquecer também das questões hormonais e sociais de ser mulher. É comum que pessoas que menstruam sintam uma certa tristeza no período pré-menstrual, isso é verdade, mas vamos além: nós, mulheres, fomos historicamente taxadas de sentimentais demais justamente porque essa própria sociedade nos moldou para o cuidado. Fomos condicionadas à empatia por uma construção social que exige que tenhamos consciência dos problemas do mundo, dos outros, e dos nossos, portanto, sofremos muito com a dor do outro. Somos esponjinhas emocionais.

Em suas obras, Freud e Nietzche, já diziam: o sofrimento é uma travessia a ser percorrida para a passagem à alegria ou para que haja mudança psíquica. Por isso, a tristeza nada mais é do que apenas uma passagem de tempo. Ela também se vai, assim como diversos outros sentimentos.

A felicidade não é a ausência da tristeza.

Viver nessa eterna busca por algo que vai nos causar felicidade momentânea só gera insatisfação e nos faz perder o mais importante que é o caminho. Tudo bem não se sentir assim tão bem agora, permita-se viver esse momento. Viva cada dia, cada humor. Exploda de felicidade quando estiver feliz. Chore até desidratar se tiver vontade. Mas saiba que tudo é transitório.

E já que começamos com uma musa do jazz, vamos terminar com outra, a Paloma Faith. Essa mensagem é para todas nós. <3

 

“Angels watching over me

With smiles upon their face

Cause I have made it through this far

In an unforgiving place

It feels sometimes this hill's too steep

For a girl like me to climb

But I must knock those thoughts right down

I'll do it in my own time”

 

“Anjos cuidando de mim

Com sorrisos no rosto

Porque eu cheguei até aqui

Em um lugar implacável

Às vezes parece que essa colina é muito íngreme

Para uma garota como eu escalar

Mas eu devo derrubar esses pensamentos

Vou fazer no meu tempo”

 

 

Ps: Se a tristeza persistir de uma forma muito dolorosa, que esteja te impedindo de vivê-la, algo está errado, procure ajuda profissional.